Sobre
Do mesmo jeito que o nosso corpo precisa digerir a comida que a gente ingere, a nossa mente precisa digerir as coisas que acontecem com a gente.
Depois de experienciar, a gente precisa dar sentido aos fatos. A gente precisa processar as conversas que teve, entender o subtexto por trás das falas, refletir sobre a importância dos acontecimentos na narrativa da nossa vida. Não dedicar um tempo para isso é como engolir sem mastigar e continuar enfiando comida pra dentro sem parar.
Nos últimos 300.000 anos, essa digestão mental sempre foi um processo espontâneo. Um ser humano nômade de uma tribo caçadora-coletora passava horas olhando para o céu, relembrando a caçada, pensando em quem fez o quê, fantasiando situações etc. Mesmo porque ele não tinha muitas outras opções do que fazer depois de caçar, se alimentar e encontrar uma sombra.
Pra um trabalhador agrícola de 300 anos atrás não era muito diferente. Sem internet, televisão ou rádio, ainda mais quem vivia no campo, tinha tempo de sobra pra pensar. Todo dia tinha algumas horas reservadas pra olhar as nuvens, avaliar a própria vida, lidar com os traumas do passado e enfrentar as visões do futuro.
Mas hoje, não. Hoje o fluxo de informação é um rio furioso que nunca cessa, e pelo contrário, só aumenta. O cérebro das pessoas trabalha em alta frequência o tempo todo. Ninguém mais tem tempo para ficar alguns minutos sem fazer nada. Pior: ninguém mais consegue ficar alguns minutos sem fazer nada.
A mente contemporânea se acostumou com o estado de hiper estimulação. Hoje, as pessoas têm dificuldade de manter a atenção focada durante um filme inteiro. Ninguém mais consegue ler mais do que algumas frases por vez sem se distrair. Estamos completamente viciados em notificações, reações, emojis, memes, títulos curtos e sensacionalistas.
E aí, nessa dinâmica, a gente já não para mais para digerir os acontecimentos da nossa vida.
Por isso, escrevo ensaios. É um jeito de exercitar a reflexão. Porque escrever te obriga a organizar os pensamentos, dar forma a eles e encará-los depois que estão concretos no papel – ou na tela, que seja. E também, quando você registra ideias em qualquer que seja a forma, inevitavelmente você acaba se reencontrando com elas depois de algum tempo. E aí você acaba tendo uma nova oportunidade de repensar sobre aqueles assuntos e também de se observar e se entender.