Ramon K.

O jeito certo de viver

Eu passei bastante tempo pensando sobre felicidade. E o engraçado é que isso só me fez ficar triste. Porque felicidade é um conceito teórico; uma pintura que só existe no mundo das ideias. O emprego perfeito, a casa perfeita, o estilo de vida que vai te deixar em paz pra sempre é só uma ilusão que a gente é encorajado a perseguir. Mas eles não existem. E a vida definitivamente não é sobre isso.

Por muito tempo eu tentei chegar nesse lugar onde eu seria feliz. E a verdade é que a vida era uma merda. A minha sensação é que eu estava preso num dia que nunca acabava, como se houvesse um bug no tempo. O tempo inteiro eu sentia que a minha vida ainda ia começar. Que, algum dia, quando eu terminasse aquilo que eu estava fazendo, a vida começaria. E mesmo eu sabendo que no fundo aquilo nunca ia terminar, porque aquilo não tem fim.

Hoje, a minha vida é completamente diferente. Hoje, eu tenho a sensação de que estou numa série de TV. Que cada dia é um episódio novo, com começo, meio e fim, problemática, clímax, resolução e moral da história. Todo dia eu vejo os personagens a minha volta se desenvolverem, vejo o meu personagem se desenvolver, e cada vez mais entendo e gosto deles. E eu sinto que essa é só a primeira temporada.

As pessoas me vêem diferente e acham que a mudança tem a ver com a mudança no tipo de trabalho. Ou com a quantidade de trabalho, ou com o nível de estresse das tarefas, ou com uma paixão pelo trabalho. Mas definitivamente não é isso. A quantidade de trabalho aumentou. A quantidade de esforço aumentou. As tarefas são tão estressantes quanto as antigas. Não foi nada disso que mudou como eu sinto e levo a vida. O que mudou tudo pra melhor foram as relações com as outras pessoas.

Por muito tempo eu concordei com a afirmação de que “não existe um jeito certo de viver”. Hoje, eu descordo: pra gente, que é ser humano, tem sim um jeito certo de viver. A gente foi feito pra viver em bandos, onde todos se importam com todos, e se importam com as mesmas coisas. Pode parecer melodramático, romântico ou utópico demais, mas é só a biologia desse planeta — e basta observar os outros primatas.

Eu me importo com as pessoas que estão comigo. E eu realmente acho que eles se importam comigo. Na minha cabeça, estamos vivendo uma aventura juntos. O trabalho é só um contexto, a história mesmo… é sobre nós. E não sei se conscientemente, mas acho que eles também se sentem assim.

Eu não penso mais em ser feliz, ou o que é felicidade, ou como chegar na felicidade. Eu não penso mais na divisão vida pessoal e trabalho. Eu não quero mais tempo pra poder curtir: eu já estou curtindo. Eu já estou no lugar certo. Todo dia eu acordo e sinto um frio na barriga sobre o que vai acontecer naquele episódio.