Ramon K.

Romantismo é o inimigo

A maior parte dos relacionamentos dá errado só porque a gente tem um entendimento errado do que é um relacionamento.

A gente olha pros nossos relacionamentos sempre por uma lente romântica, que é uma lente cheia de ideias fantasiosas sobre como as coisas deveriam funcionar. E o problema é que essas ideias fantasiosas acabam gerando na gente uma série de expectativas igualmente fantasiosas. A gente começa a esperar do outro coisas que ele não tem como dar e, como ele não tem como dar, isso vira uma fonte infinita de frustrações. Chega uma hora que ninguém é bom o bastante pra gente e a gente nunca é bom o bastante pra ninguém. Nada nunca parece dar certo.

Se a gente conseguisse olhar pros nossos relacionamentos pelo que eles realmente são, e não pela perspectiva romântica, talvez muitos relacionamentos promissores não terminariam antes da hora e muitos relacionamentos problemáticos não durariam tanto mais do que deveriam. Só que fazer essa mudança de perspectiva não é fácil, porque o Romantismo não é uma característica individual. Na verdade, todo mundo no mundo ocidental é um romântico. Porque o Romantismo é um traço cultural. É uma narrativa, que está tão bem enraizada na nossa cultura, que a gente nem sequer sabe que se baseia nela pra entender o mundo.

Considere o seguinte: até uns duzentos anos atrás, ninguém se casava por amor. As pessoas se casavam sempre por algum motivo funcional, fosse juntar o patrimônio das famílias, subir de status social, firmar um acordo político, ou às vezes até mesmo só pra agarrar a única oportunidade que apareceu. Porque casar não era sobre encontrar um amor verdadeiro e viver um conto de fadas. Casar era sobre montar e operar uma instituição familiar. O objetivo era ter filhos, sustentá-los, educá-los e arrumar um bom casamento pra eles também. Então, ninguém procurava uma paixão pra casar. As pessoas procuravam um bom arranjo pra casar.

E por mais contraintuitivo que possa ser hoje, a maior parte desses relacionamentos durava a vida inteira, e as pessoas estavam sempre satisfeitas com eles do jeito que eles eram. Mesmo porque elas não tinham nenhuma expectativa de se amar. Elas sabiam o que era esperado delas e se viravam pra fazer aquilo dar certo, fosse como fosse, aos trancos e barrancos. E aí, sim, às vezes o amor surgia em algum lugar do caminho como um bônus.

Essa dinâmica só parece inadequada hoje porque a gente é herdeiro de uma tradição romântica recente. Mas por basicamente toda a história humana, as coisas sempre foram assim.

E o que aconteceu foi o seguinte: na Europa de uns duzentos anos atrás, o pensamento predominante na sociedade era o que hoje a gente chama hoje de Iluminismo, uma visão estritamente racional, lógica e metódica do mundo.

Com o avanço das descobertas científicas, as pessoas começaram a entender que todas as ações humanas podiam ser planejadas, calculadas e executadas seguindo algum tipo de formulação matemática. E essa visão, claro, incomodava profundamente uma parte das pessoas, assim como incomoda até hoje, porque de certa forma ela tira a poesia do que é ser humano. E aí, como resposta, vários artistas e intelectuais começaram a exaltar todos os valores que eram contrários aos do Iluminismo, isto é, o emocional, o subjetivo, o instintivo, etc.

Aos poucos, os livros começaram ficar mais melancólicos, os quadros mais dramáticos, e até a música deixou de seguir uma estrutura tão rígida pra se tornar algo mais sentimental. A ênfase de tudo passou a ser os sentimentos e não mais o racional.

Esse movimento é o que a gente chama hoje de Romantismo. E por um período da história, esse modo romântico de pensar, guiado pelas emoções, penetrou em quase todos os temas da vida humana, da historiografia ao jeito de jogar xadrez. Mas com o passar do tempo, naturalmente ele foi perdendo espaço pra outras ideias. O Romantismo só sobreviveu por inteiro mesmo em um aspecto da nossa cultura: nos relacionamentos amorosos.

Hoje, em todos os filmes, séries, livros, músicas, propagandas, e qualquer tipo de mídia que você possa imaginar, os relacionamentos são sempre abordados a partir de uma perspectiva romântica. Os relacionamentos são sempre retratados por símbolos que remetem a algum sentimento, então: o primeiro beijo, as mãos dadas, o brilho no olhar, o sexo instintivo, e no outro sentido também, o coração partido, o sofrimento de reviver as memórias, a solidão num dia de chuva, as lágrimas escorrendo, etc.

Nenhuma história de amor mostra o casal combinando quem lava as privadas e quem tira o lixo como símbolo de um relacionamento bem sucedido. É sempre sobre um sentimento mágico — bom ou ruim — e nunca sobre a dinâmica cotidiana. E como essas imagens estão por toda a nossa cultura, o nosso entendimento do que é um relacionamento não tinha como ser outro. Naturalmente, a gente espera que o mundo seja como ele foi repetidamente mostrado nos filmes e nos comerciais de dia dos namorados por toda a nossa vida.

O Romantismo deixou pra gente um mito que é mais ou menos assim: pra cada um de nós, existe uma outra metade, perdida em algum lugar do mundo, que completa a gente perfeitamente. É uma pessoa que entende todos os nossos anseios, tolera todos os nossos defeitos e atende todos os nossos desejos, só por ser do jeito que ela já é. E a gente vai saber quando encontrar ela porque ambos vão ser tomados por um sentimento incontrolável, uma paixão, que vai laçar os dois e depois se transformar em amor. E o amor vai manter os dois amarrados pra sempre.

Olhando com certa distância, de forma fria, é fácil ver o quanto tudo isso é um pouco ingênuo. Mas ingênuo ou não, a verdade é que todo mundo se baseia exatamente nessa estrutura pra se relacionar. A gente confia nos nossos instintos pra escolher o nosso parceiro, e depois continua confiando neles também pra manter tudo funcionando. A gente acredita que enquanto houver um sentimento, pode superar todas as provações, e que quando esse sentimento acaba, tudo acaba. Ou seja: todo o funcionamento do relacionamento depende do nosso sentimento. O que claramente é uma ideia imbecil.

Veja, não me entenda mal: não existe nenhum problema em se apaixonar. Na verdade, pelo contrário, apaixonar-se é talvez a sensação mais gostosa que a gente experiencia na vida. Mesmo com todas as angústias envolvidas, estar apaixonado enche a vida de cor — e nisso, acho que os românticos estão cobertos de razão. Não só isso, a paixão é de fato um excelente mecanismo pra encontrar um parceiro. A gente não pode desconsiderar que a paixão é um dispositivo biológico, que foi moldado durante centenas de milhares de anos de evolução só pra isso. E se ela não cumprisse bem sua função, provavelmente não teria sobrevivido até aqui.

A gente só precisa ter em mente é que a função biológica da paixão é encontrar parceiros sexuais, e não necessariamente o melhor companheiro de vida. A paixão é uma espécie de estado especial que é ativado quando os nossos genes encontram do outro lado uma combinação que parece promissora pra gerar filhos saudáveis — e não mais que isso. O único problema é que nesse estado, a gente fica completamente hipnotizado, e qualquer pessoa pode parecer a nossa metade prometida, aquela que a gente quer levar pro resto da vida. A gente fica cego pra todos os problemas e só pensa em se esfregar — o que sem dúvidas ajuda a gerar filhos, mas não garante muito mais que isso.

Na verdade, nem seria um problema apoiar os nossos relacionamentos nesse sentimento se não fosse uma única questão: a nossa biologia sabe que se ninguém engravidar em um ou dois anos, tem alguma coisa de errado acontecendo. E por isso, a paixão passa. Ela sempre passa. Em absolutamente todos os relacionamentos, de todas as pessoas, em todos os lugares do mundo, em todos os momentos da história, depois de um ou dois anos, ninguém mais dorme e acorda pensando no outro, nem passa o dia inteiro sonhando com a voz do outro, e nem sente vontade de transar com o outro em todas as oportunidades possíveis. E o duro é que só aí, quando a paixão passa e a gente volta a pensar normalmente, que a gente consegue perceber o quanto a pessoa do outro lado é completamente esquisita.

E o que sobra daí pra frente é um relacionamento. Um que depende de várias outras coisas que não tem nada a ver com paixão, e as quais a gente nunca para pra ponderar. Por isso, digo que tomar decisões de longo prazo enquanto está apaixonado é tão boa ideia quanto fazer promessas bêbado. Esse é tipo de erro que faz muitos casamentos acontecerem da noite pro dia, e depois terminarem logo nos primeiros anos.

Da mesma forma, achar que a paixão é o que sustenta um relacionamento é como pensar que a vida a dois só faz sentido enquanto se está bêbado. Esse é o pensamento faz muitos casais promissores acabarem virando só amigos, quando poderiam ter dado certo juntos: “ah, o sentimento acabou”. Bom, mas ele sempre acaba.

Nesse aspecto, os casamentos arranjados de duzentos anos atrás tinham certa razão. Claro que a gente não quer voltar no tempo pra reviver dinâmicas abusivas, restrições absolutas de liberdade e nenhuma dessas coisas que seriam completamente anacrônicas hoje em dia. Mas existe uma sabedoria nesses casamentos que a gente não pode jogar fora junto com o resto do pacote. E essa sabedoria é a seguinte: casar não é exatamente sobre o amor, casar é sobre encontrar alguém pra dividir a vida. Isto quer dizer encontrar alguém não pra trocar presentes e assistir o pôr do sol de mãos dadas, mas alguém pra resolver problemas, compartilhar dificuldades e construir coisas juntos. Alguém pra dividir a jornada da vida, e tudo que ela envolve, pro resto da vida.

Um ponto interessante que eu acho que ajuda a entender isso é o seguinte. Quando a gente vivia em tribos, a gente dividia a vida com várias outras pessoas. E dividia mesmo: dormia juntos, acordava juntos, caçava juntos, comia juntos. E como a gente estava sempre cercado de muitas pessoas, a gente tinha os nossos diferentes tipos de relacionamentos divididos entre várias pessoas: a gente transava com uma pessoa, mas desabafava com outra, e tomava conselhos de outra, e se divertia com outra, e dividia as tarefas com outra, e assim por diante.

Hoje, a dinâmica já não é mais essa. Hoje, a gente concentra todas essas pessoas em uma só: o nosso parceiro de vida. A gente funda e vive em tribos de dois. As nossas necessidades sociais continuam sendo as mesmas, mas pelas circunstâncias da vida moderna, agora todas elas dependem de uma só pessoa — e às vezes de um ou dois bichos.

Por isso, hoje, procurar um parceiro na verdade é muito mais parecido com procurar um sócio: o importante é que seja alguém com quem a gente funcione bem junto. Alguém com quem a gente consiga ter os vários tipos de relação, tenha facilidade de negociar e consiga estar sempre alinhado em relação a como as coisas devem funcionar. Porque, de novo, é uma tribo de dois. E assim como na tribo de muitos, a gente tem que conseguir estabelecer os valores, costumes e rituais pra tribo conseguir operar bem. As duas pessoas precisam estar em sincronia no modo de pensar e de fazer as coisas.

O desafio nisso é que, diferente do que a visão romântica ostenta, não existe ninguém com o perfil perfeito para as nossas necessidades. Não existe outra metade. A gente nunca vai encontrar alguém que pensa exatamente como a gente e que automaticamente vai operar como um time bem entrosado. O que existe são alguns perfis aos quais a gente consegue se adaptar mais facilmente e que conseguem se adaptar mais facilmente à gente. Mas esse é o tipo de coisa a gente só descobre de verdade depois que a paixão passa e o modo normal de raciocínio é reestabelecido. Então não tem jeito: começar um relacionamento é sempre uma aposta. E uma que na maior parte das vezes a gente sai perdendo.

Por outro lado, construir um relacionamento é de qualquer forma um processo longo, e a paixão é um excelente motivador pros primeiros encontros. Se não existisse paixão, provavelmente a gente desistiria de todos os relacionamentos logo nos primeiros dias, porque dá trabalho conhecer outra pessoa: você tem que se deslocar, gastar dinheiro, ter paciência, se expor, e tudo isso com um desconhecido. A hipnose da paixão faz tudo isso acontecer sem muita dor. E esses primeiros encontros têm bastante importância pro longo prazo porque neles a gente já começa a entender que tipo de sócio essa pessoa vai ser. A gente começa a entender, por exemplo, como a pessoa cumpre horários, como é a rotina de sono dela, como ela encara o trabalho, como ela resolve problemas, se ela se comunica bem, se é fácil negociar com ela, e várias outras pequenas coisas que são cruciais pra escolher alguém pra fundar uma tribo junto.

O que a paixão ofusca um pouco nesse começo são os problemas. E os problemas são uma parte importante da equação. Porque todo mundo tem problemas, e pra ter um relacionamento, algum pacote de problemas a gente precisa aceitar. Por isso, não tem outro jeito: a gente precisa atravessar o período da paixão pra ponderar se pro resto da vida vai aguentar a pessoa mastigando daquele jeito, vestindo aquelas roupas estranhas ou falando aquela gíria horrorosa. Ou se pelo menos vai conseguir negociar esse tipo de coisa. Porque negociar, diferente do que o romantismo prega, é uma parte muito importante pra qualquer relacionamento.

No mito romântico, a gente não pode querer mudar a outra pessoa, e a outra pessoa não pode querer mudar a gente — porque os dois, em tese, já são perfeitos um pro outro. No mito romântico, mudar o outro é errado. E por causa dessa ideia, os casais nunca aprendem a negociar. Isso tem consequências péssimas, que acontecem em quase todos os relacionamentos. Por causa dessa perspectiva romântica, a gente sempre espera que o outro saiba o que se passa pela nossa cabeça, sem que a gente precise dizer nada. Pior do que isso: a gente acredita que dizer algo inclusive estragaria tudo. É daí que vem a tão comum situação onde uma pessoa fecha a cara, e quando a outra pergunta o que foi, ela diz que não foi nada e continua de cara fechada. No fundo, ela espera que a outra pessoa saiba o motivo dela estar chateada e faça algo sem ela ter que explicar o quê. Esse tipo de expectativa fantasiosa só existe porque o entendimento da realidade também é fantasioso.

Chato ou não, o fato é que não existe nenhuma outra forma razoável de fazer as coisas funcionarem num relacionamento se não negociando. É só negociando que uma pessoa consegue se adaptar a outra e vice-versa. E ao contrário do que possa parecer, negociar não tem nada de anticlimático. Pelo contrário, esse é um dos aspectos mais bonitos de um relacionamento a dois: ali dentro, pra qualquer coisa acontecer, só depende dois. O relacionamento é um dos poucos arranjos onde nenhuma regra, norma ou convenção social importa. O casal tem poder absoluto pra definir qualquer protocolo bizarro de comunicação, qualquer prática sexual pouco ortodoxa, qualquer conjunto de regras de convivência, e ninguém, absolutamente ninguém pode interferir nisso. Então, com uma boa negociação, o relacionamento se torna um lugar onde a realidade se distorce à vontade do casal.

Mas tudo isso dá trabalho, claro. E esse é outro ponto que se perdeu em algum lugar do caminho. No casamento de duzentos anos atrás, as pessoas sabiam que um casamento tinha responsabilidades, que era um compromisso, que dava trabalho. As pessoas inclusive se preparavam pra casar — as mulheres muito mais do que os homens, é verdade. Hoje, não. As pessoas esperam algo que elas possam dar play e funcione automaticamente. Mas isso não existe.

Fazer uma relação funcionar envolve entender o outro lado, propor ações, negociar, convencer, ser convencido, mudar de atitude, e abrir mão de uma série de coisas. E essas negociações não são só sobre grande questões como ter filhos ou não, morar na cidade ou no interior, etc. Você precisa negociar mesmo as menores das idiossincrasias: o lugar onde a pessoa coloca a toalha molhada, o barulho que ela faz com os talheres, o jeito de discutir, tudo. É algo que leva anos de trabalho pra funcionar bem, e que precisa de presença constante pra continuar funcionando.

Agora, o mais importante é que, apesar de todo o trabalho envolvido, vale a pena. Porque a gente precisa de conexões profundas pra ser feliz. A gente precisa depender de outras pessoas e precisa que outras pessoas dependam da gente pra ter uma vida saudável. Tem muita gente que acha que ser livre e independente é o que vai fazer elas felizes, mas a gente só é feliz quando está conectado a outras pessoas. A gente precisa ter pessoas o tempo todo dentro da nossa intimidade, vivendo o melhor e o pior da vida com a gente.

Infelizmente, a gente não vive mais em tribos de cinquenta pessoas. Hoje, a gente leva meia dúzia de bons amigos pela vida — e olhe lá. Mas os nossos amigos não dormem com a gente, nem acordam com a gente, e por isso muitas vezes não tem como compreender os nossos medos e desejos mais profundos. É a tribo de dois que salva a gente da solidão.

E, por fim, um outro ponto onde os românticos acertaram é que o amor existe. Ele realmente existe. Ele só não tem nada a ver com a paixão. Porque a paixão é feita de hormônios. Ela surge de repente e, da mesma forma, se desfaz de repente. O amor não. O amor é feito de memórias. Ele se constrói aos poucos. O amor é como uma planta, que nasce frágil e vai crescendo ao longo da jornada, ao custo de muito carinho e dedicação. E aí, ao contrário do que um romântico imaginaria, ele não depende de rosas, chocolates, poemas, ou qualquer coisa desse tipo. O que faz ele crescer é encontrar todas as pessoas da tribo em uma só. É todo dia descobrir no outro alguém pra brincar, pra desabafar, pra cuidar, pra ser cuidado, pra ensinar, pra aprender, e pra atravessar todas as estações juntos. É aprender a gostar dos defeitos do outro, e descobrir como mantê-los em segredo pro resto do mundo. É admirar as qualidades do outro, e morrer de orgulho de ser parte daquilo. Amar é torcer e assistir o outro vencer. Mas é também assistir o outro envelhecer e morrer ao poucos. É dividir o doce e o amargo da vida, todos os dias, pro resto da vida.