Sobre viver junto
A característica mais fundamental do ser humano é também a mais bonita: a gente não sobrevive sozinho.
O ser humano é uma das várias espécies do planeta que só sobrevive em grupo. Diferente de um tigre, que tem biologia suficiente pra se virar sozinho, um ser humano médio não vence nem uma vaca num combate corpo a corpo. Além de fraco, lento e molenga, a gente não tem garra, nem veneno, ferrão, nem qualquer outro mecanismo especial pra se defender sozinho.
Fora isso, é impossível criar um filhote de humano sozinho. Ao contrário de outras espécies, em que o filhote já cai no chão andando, o ser humano nasce muito antes de ficar pronto. Até o crânio vem desmontado. O bebê humano tem tanta autonomia quanto uma fruta: se você largar num canto, ele morre ali mesmo, exatamente onde você deixou.
Ele só sobrevive até a idade adulta se vários outros humanos, incluindo completos desconhecidos, se mobilizarem pra isso acontecer. Todo mundo tem que ajudar pelo menos um pouco pra garantir que a criatura seja alimentada e não morra fazendo nenhuma idiotice. Uma mãe coruja deixa de se preocupar com os filhotes com vinte semanas. Já uma mãe humana, nunca deixa de se preocupar com os filhos.
O ser humano é frágil. Mas curiosamente, foi isso que fez da gente a espécie dominante do planeta. Porque foi dessa incapacidade de sobreviver sozinho que surgiu o nosso traço mais poderoso: a nossa capacidade de cooperar.
Nas centenas de milhares de anos que a nossa espécie passou vagando pelas savanas africanas, todos os que acharam que seria boa ideia viver sozinho morreram. Por outro lado, os que acharam melhor pedir ajuda antes de atacar um mamute, esses sobreviveram. E passaram pra frente seu DNA, com qualquer que fosse a mutação genética que causava o instinto de querer ficar perto do grupo.
Essa peneira aplicada durante milhões de anos moldou a gente dum jeito muito específico. Mas ao invés de fazer crescer garras ou algo do tipo, fez uma coisa muito menos provável. A natureza selecionou os seres humanos que queriam ficar juntos.
Sobreviveram ao processo evolutivo os seres humanos que pediram colo. Os que gritaram pelos pais quando sentiram medo. Os que tinham um amigo pra estender a mão na hora do apuro. Sobreviveram os que se apaixonaram. Os que dividiram a comida. Os que contaram histórias.
Sobreviveram os seres humanos que ajudaram a cuidar das crianças. E também os que ajudaram a cuidar dos mais velhos. Sobreviveram os que aprenderam com as crianças. E principalmente os que aprenderam com os mais velhos. Sobreviveram até uns que se desentenderam, brigaram e pararam de se falar. Mas esses só sobreviveram porque continuaram juntos mesmo assim.
E o que essa necessidade de cooperar fez pela nossa espécie é extraordinário.
É extraordinário que um primata, que até outro dia vivia como todos os outros animais na selva, tenha se organizado pra começar a plantar o próprio alimento. E depois tenha construído abrigos. E se dividido em diferentes papeis. E inventado conceitos extremamente complexos como estado, leis e dinheiro. E ainda tenha achado um jeito de passar esses e todos os outros conceitos já inventados pra frente, acumulando conhecimento suficiente pra ir e voltar da lua numa cápsula de metal.
É extraordinário porque isso nenhum tigre, nenhuma coruja e nenhum outro bicho faz.
(…)
Às vezes é difícil enxergar que a gente é um animal; a continuação de um primata peludo e mal cheiroso, que só sobrevive em grupo. Em partes, porque a gente tenta esconder os três: o cheiro, a pelagem e o quanto depende um do outro.
Mas se a gente pudesse ver os nossos ancestrais em fila — com nossos pais seguidos dos nossos avós, depois nossos bisavós e assim por diante —, já na posição trezentos encontraria um antepassado que viveu na idade da pedra, dependendo do bando pra absolutamente tudo.
A gente continua sendo esse mesmo animal. A operação pode ter ficado muito mais complexa do que era pra cercar matar um mamute, mas no fim a gente continua fazendo a mesma coisa de sempre: tentando sobreviver. E só tem tido sucesso graças a nossa capacidade trabalhar junto.
Mas por algum motivo, de algumas gerações pra cá, a gente parece estar se esquecendo disso. Pouco a pouco, a gente tem se tornado cada vez mais individualista. A gente tem passado cada vez mais tempo pensando na nossa narrativa individual, no nosso sucesso pessoal, no que a gente quer pra ser feliz, e cada vez menos tempo pensando na grande teia da qual a gente faz parte.
E agora, com a internet, esse processo só ficou mais rápido. Em partes, porque a gente acabou se dividindo fisicamente. A gente já não precisa mais sair de casa pra trabalhar, pra comprar ou pra se entreter. Então a vida inteira cabe e às vezes se resume a um apartamento.
Mas ao mesmo tempo, também porque a gente está se dividindo mentalmente.
A internet criou a possibilidade de cada um ter o próprio mundo, completamente customizado de acordo com as próprias preferências. A gente pode ficar vendo e ouvindo só o que a gente quer, rodeado de avatares parecidos com o nosso, sem nenhuma perturbação. E se qualquer coisa incomodar, é só bloquear, se desinscrever, parar de seguir, e tudo fica perfeito de novo — não a toa a gente passa tanto tempo hipnotizado por essas telas.
O problema é que, depois de um certo tempo isolado em apartamentos e mundos digitais, a gente desaprende a conviver. A nossa percepção do mundo real fica tão distorcida, que quando a gente se encontra, não consegue mais concordar sobre o que é certo e errado, bom e mau, belo e feio. Na verdade, a gente mal consegue concordar sobre o que é real.
E aí a gente começa a se frustrar com as pessoas. Porque no mundo real elas não se parecem e não pensam como a gente. E também porque no mundo real não dá pra customizar isso. Não dá pra bloquear os vizinhos que tem opiniões políticas diferentes. Não dá pra parar de seguir os problemas do bairro. Não dá pra se desinscrever da família — ainda que às vezes seja prudente sair do grupo de mensagens.
Não dá pra moldar o mundo real conforme o nosso desejo. Mas por outro lado, dá pra ficar alheio. E muitas vezes é isso que acontece: cada um vai cuidar da própria vida. Cada um focado na própria carreira, dirigindo o próprio carro, criando o próprio filho. E todo mundo sem nenhum compromisso — e às vezes nem contato — com as pessoas da comunidade em que vive.
Se o nosso ancestral da idade da pedra visse isso, ele ficaria surpreso. Não só com o desaparecimento do cheiro e da pelagem, mas também com o desaparecimento do que costumava ser a coisa mais importante: viver junto.
(…)
Por causa da nossa cultura, muitas vezes a gente tem a intuição de que pra ser mais feliz, a gente precisa de uma casa maior, de um carro mais confortável ou de um cargo melhor. Mas na maior parte das vezes isso é só uma ilusão. No fundo, o que a gente realmente gostaria é de fazer parte de uma comunidade saudável.
Muito melhor do que uma casa maior, é viver numa cidade que você pode aproveitar sem medo. Porque se você se sente em casa na sua cidade, o seu quintal tem praças, parques, academias ao ar livre, e uma série de outras coisas que dificilmente caberiam num projeto residencial.
Nesse mesmo sentido, muito melhor do que ter um carro mais confortável é viver num bairro onde é gostoso andar a pé. Muito melhor do que ser importante pros números de uma empresa, é ser importante na vida de alguém.
A nossa felicidade depende da existência de outras pessoas e de comunidades onde a gente possa prosperar. Se a felicidade humana pudesse ser conquistada individualmente, nenhum rico jamais iria ao psiquiatra.
Por isso, a gente precisa recuperar o nosso senso de comunidade. O mesmo senso que a gente carregou pela maior parte da nossa história.
Foi um longo o caminho da ferramenta de pedra até aqui. Não foi fácil construir cidades. Os alimentos nem sempre brotaram em gôndolas de supermercado. A nossa vida hoje só é assim, tão mais fácil, porque incontáveis gerações de seres humanos passaram por aqui antes, e deram sangue e suor pra construir o mundo em que a gente vive.
Por isso, só de ser do gênero humano, a gente já nasce com a responsabilidade de cuidar do que foi construído até aqui, e dar o nosso melhor pra que a próxima geração possa chegar ainda mais longe. E não importa o quanto você se sinta independente ou deslocado da sociedade em que vive, a responsabilidade continua sendo a mesma. Porque mesmo alheio, a gente continua dependendo da cooperação de outras pessoas pra tudo: só dá pra comprar se tiver alguém vendendo. Só dá pra ter um trabalho se alguém confiar na gente. Mesmo as coisas mais simples do nosso dia, só são possíveis porque todo mundo está fazendo sua parte.
E mesmo do ponto de vista mais egoísta, o melhor a se fazer ainda é cuidar da comunidade em que se vive. Porque quando a vida das outras pessoas melhora, a nossa vida também melhora. Se todo mundo a nossa volta estiver feliz e saudável, a criminalidade diminui. O trânsito fica menos hostil. A gente é melhor atendido. Porque pessoas felizes criam mais, trabalham mais, se doam mais.
Claro que, no mundo real, melhorar a vida de todo mundo é um pouco mais complicado do que dar meia dúzia de cliques. No mundo real, a gente precisa de tolerância.
A gente precisa conseguir entrar num acordo mesmo com as pessoas das quais a gente discorda completamente. A gente precisa conseguir ouvir com atenção mesmo as ideias que ofendem profundamente. A gente tem que cuidar de todo mundo, mesmo das pessoas que a gente não suporta, porque não tem outro jeito: a gente vai continuar todo mundo aqui, juntos, e dependendo uns dos outros.
Mas no fim, é muito mais fácil do que parece.
Porque quando a gente assume a responsabilidade e começa a olhar pras pessoas a nossa volta, a gente percebe que o ser humano na verdade é incrível. Que apesar de ter muita gente imbecil a nossa volta, também tem um monte de gente criativa, inteligente e bem intencionada. E que muitas vezes, as pessoas imbecis e as bem intencionadas coincidem de ser as mesmas — porque o mundo real é assim, cheio de nuances e contradições.
Nas nossas comunidades — na nossa cidade, no nosso bairro, na nossa rua —, está cheio de gente com muito pra doar. Gente que entende muito de um assunto específico, gente que sabe como fazer coisas incrivelmente difíceis, gente com experiências valiosas de vida. E ao mesmo tempo, também está cheio de gente que só precisa de uma força pra começar, e quem sabe se tornar a nova geração de grandes humanos.
Por isso, a gente não precisa de nenhum grande plano pra fazer coisas incríveis. A gente nunca precisou. A gente só precisa nunca perder de vista que a nossa característica mais fundamental é também a mais bonita: a gente não sobrevive sozinho.