Anarquia ou ditadura das narrativas? Tanto faz
Antigamente, a mídia era composta por meia dúzia de entidades. Existia meia dúzia de emissoras de TV, rádios e jornais que decidiam toda a narrativa do debate público. Haviam duas, no máximo três, narrativas dos fatos.
Depois das redes sociais, o debate se democratizou. Dessas grandes empresas, o poder passou pras pessoas. Todo mundo passou a ser criador de conteúdo; comentarista, especialista, influenciador. E aí, as narrativas se proliferaram.
Por um lado, isso foi libertador: pessoas comuns ganharam voz. Mas por outro lado, trouxe um tipo novo de problema: se antes a dificuldade de saber a verdade era a falta de diferentes perspectivas, agora a dificuldade é o excesso de diferentes perspectivas — talvez a Terra seja plana, talvez vacinas causem autismo, talvez a Nova Ordem Mundial esteja por trás de tudo.
E aí, a coisa deu a volta: de repente, tem muita gente querendo que as empresas por trás das redes sociais moderem o conteúdo que está sendo postado. Talvez muita gente não se dê conta, mas isso é voltar ao modelo anterior: meia dúzia de grandes empresas decidindo a narrativa que deve prevalecer; só que ao invés dos grandes veículos de imprensa no controle, agora teríamos big tech’s.
E aí surgem questionamentos do tipo: entre a anarquia e a ditadura da informação, qual é o ponto ideal? Devemos ter um sistema de checagem de fatos? E quem deve fazer essa checagem? Quem fiscaliza os fiscais?
Essas parecem perguntas relevantes, mas no fim elas não levam a lugar nenhum. Porque o problema não está no lado da oferta; em quem produz o conteúdo. O problema está no lado da demanda; em quem consome o conteúdo. Só tem tanta informação merda circulando porque tem muita gente carente de sentido e propósito.